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PIXOXÓ
a marca de uma pata impressa no coração
Pixoxó
era uma gata linda e boa, que marcou o começo de meu gosto por
gatices.
Eu tinha cerca de 6 anos, e ela era a gata da minha avó. Era uma
escama maravilhosa ( gata feia, diziam os desavisados ).
Pixoxó era rueira, safada e desavergonhada, como todas as gatas
de seu tempo. Um tempo de gente incauta e ingênua, que achava que
os gatos deviam todos ir cuidar de sua vida pelas ruas, e que o mundo
não oferecia maiores riscos que uma gravidez indesejada. O que
era perfeitamente contornável, afinal, sempre se tinha uma casa
( de preferência, velha ), onde havia uma senhora ( quase sempre
velha também ) que adorava gatos e catava todos.
Ela vinha para casa como se fosse para um hotel. Comia, bebia, deitava
e rolava, brincava com as crianças, ronronava, se aconchegava e
dormia o sono dos justos.
À noite, simplesmente sumia. Ia paquerar, passear, viver sua vida
de gata de telhado. Aparecia arranhada, suja, radiante, danadíssima,
cheia de graça.
Claro que vez por outra também aparecia com a barriga cheia de
filhotes, misteriosamente plantados dentro dela por algum gato "sem
vergonha, viralata, aproveitador". Os ditos cujos apareciam aos montes
no telhado do quintal, torturando os vizinhos com longas sinfonias de
amor. Tempos gloriosos, aqueles.
Minha mãe dizia pra ter cuidado, "eles são traiçoeiros";
meu pai dizia "gato arranha !!!" A filha deles, teimosa que
só, já desde pequena gostava de desobedecer e não
dava muita bola pra conselho de ninguém que não fosse ela
mesma, então... Pegava no colo, agarrava, passava a mão,
alisava aquele pelo curtinho e macio, gostava de ver a gata brincar com
as unhas tentando pegar sua roupa.
Quando os filhotes nasciam, era uma maravilha. Deslumbrantes olhar aquelas
minhoquinhas coloridas de boquinha rosada fazendo miiii... Como eram pequenos,
como eram frágeis, como podia ? Será que não quebravam
? Será que dentro deles era igual à gente ? Será
que Deus também tinha mandado um anjo trazer a alma deles ? Engraçado
como aprendiam tudo tão depressa, como mamavam, como eram rechonchudos,
quentes, macios.
A vó não deixava mexer nos gatinhos bebês. "Fica
molinho e morrem", dizia. A vó aparentemente não gostava
que morressem. Meu olho espantado de criança viu uma vez quando
um morreu logo depois de nascer. Viu o destino que lhe deram, destino
inglório, como se fora um peixe de aquário ( eu tinha peixes,
e eles morriam muito, sendo imediatamente despachados cano abaixo - "o
corpo da gente é só uma casquinha" - diziam ). Nunca
me esqueci daquela coisinha amarela indo embora, tão rápido,
tão cedo, tão breve ( porque Deus faz morrer os gatos e
as crianças quando nascem ? porque deixa nascer ? ).
Mas quando os gatinhos cresciam e começavam a andar, era a glória.
Pixoxó era uma gata muita dada, e não parecia querer ter
muitas preocupações com aqueles pequenos seres miantes.
Sumia, desaparecia, passava dia e noite nos telhados da vida. Alegria
para mim. Ela não ligava se tirasse os gatinhos das tetas para
brincar. Não ligava se eu os pegasse no colo ( apesar da vigilância
da avó, que com certeza achava que a neta era muito pequena e faminta
e ia comê-los com batatas ). Era uma delícia. Os gatinhos
andavam tão bonitinho, corriam um atrás do outro, mordendo
seus rabinhos, pulando, dando saltos lindos. Brincavam com as bolinhas
de papel que eu fazia, vinham atrás do potinho de leite ( ps ps
ps ps ps ps, ensinava a avó a chamar os gatinhos ). Minha avó
tinha uma fruteira de plástico azul semelhante a uma pequena jaula,
que abria em cima. Era a bolsinha de passeio. Lá iam os gatinhos
para feiras e chás imaginários. Passeavam por todas as ruas
de Paris, visitavam Narizinho no Reino das Águas Claras ( ok, eu
era mesmo maluquinha, e ainda sou ). Gatinhos viajados e sabidos.
Tão viajados e sabidos que um belo dia, pluft !!! Sumiam. Resolviam
que iam sair pelo mundo, na certa. Pena que o mundo era tão perto
como a casa velha da velha ( maluca, naturalmente ) que adorava gatos.
Pixoxó não ligava muito pra isso. Vivia sua vida de gata
que comia sardinha com arroz e dormia numa caixa velha. Andava, passeava,
comia, dormia, ronronava no colo. Pixoxó era maravilhosa. Era minha
paixão de criança. Uma menina que queria gatos, mas cuja
mãe não queria bicho andando dentro de casa.
Infelizmente, como muitos gatos de seu tempo inglório, ela veio
encontrar a morte debaixo das rodas de um carro. E deixou dentro de mim
uma marca profunda, que eu jamais esqueceria. A marca do gato. A marca
de uma pata impressa no coração.
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PAIXÃO POR TRICAS

Gatas de três cores
sempre foram absolutamente fascinantes para mim, desde Pixoxó,
e, quem sabe, até antes dela. Quando o preto e o vermelho aparecem
juntos em uma mesma pelagem, o resultado é um colorido com infinitas
variações, belíssimas. Quando um gato apresenta
pelagem composta das cores preta, vermelha e branca, dá-se a
esta o nome de Cálico, palavra de origem indiana, da cidade de
Calcutá, referente a um tecido branco de manchas coloridas. Quando
a pelagem é composta das cores preta e vermelha ou das suas diluições,
mas sem a cor branca, o gato é um Tortie ou Escama, abreviatura
da palavra Tortoíseshell, que significa casco (shell) de tartaruga
(tortoise) ou escama de tartaruga. O Cálico também é
conhecido por Tortie and White ou Tortie com branco.
Todo dito popular tem algo de verdadeiro! De fato, o sexo de um gato
pode ser de longe, "adivinhado", quando se tratar de uma pelagem
tricolor. Os Torties, Cálicos e uma outra variedade destes, os
Torbies (Torties ou Cálicos listrados) são em 99% dos
casos fêmea. Isto, deve-se ao fato de que, nos gatos, o gene que
determina tais tipos de coloração de pelagem está
ligado ao gene que determina o sexo feminino. São raros os machos
que nascem com esta pelagem e estes poucos costumam ser estéreis
(não são férteis).
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